O pesadelo de volta

O pesadelo de volta

Revista Piauí
por Danilo Marques
17/01/2026

 Ilustração: Andres Sandoval

 

Conhecido como o AI-5 das universidades, o decreto-lei nº 477, de 1969, criminalizou a prática de greves e manifestações políticas no ambiente universitário durante a ditadura militar. Aos 19 anos, quando era aluno de história na UFRJ, Francisco Carlos Teixeira da Silva foi denunciado, com base nesse decreto, por um professor que atuava na organização paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC). O estudante fazia parte da Tendência Bolchevique da Quarta Internacional, uma organização trotskista. Foi preso, torturado e solto pouco tempo depois.

Já professor assistente da Universidade Federal Fluminense (UFF), Teixeira da Silva se viu obrigado em 1978 a apresentar à instituição um “atestado de ideologia” – que era emitido por um dos mais infames órgãos da repressão, o Departamento de Ordem Política e Social (Dops). “Ir até a Rua dos Inválidos [onde ficava a sede do Dops no Rio] era o mesmo que se colocar na boca do lobo”, diz Teixeira da Silva à piauí. Ele não foi ao Dops e não obteve o documento. Ficou um ano sem salário, mas não abandonou o trabalho na universidade, imaginando que o regime militar logo cairia (a ditadura só terminou em 1985).

Em 1982, o historiador foi estudar sobre autoritarismo na Alemanha. Ao saber que uma manifestação neonazista percorreria as ruas de Hamburgo, cidade onde estava vivendo, ele imaginou que veria apenas uma meia dúzia de idosos com uniformes puídos da ss. Assustou-se ao deparar com jovens de cabeça raspada portando bandeiras com a suástica e empunhando tacos de beisebol.

Foi um ponto de virada no pensamento de Teixeira da Silva. Até então, ele supunha que “o nazismo era coisa de livro”. Percebeu então que os horrores do passado seguiam ameaçando o tempo presente. Quando ainda estava na Alemanha, militares brasileiros notificaram a polícia do país de que ele fazia parte de uma organização armada. As autoridades alemãs acreditaram na calúnia, cassaram seu visto e recolheram o passaporte. Com a mulher e um filho pequeno, ele passou a viver na Alemanha como apátrida, sob os cuidados da Cáritas Internacional.

De volta ao Brasil em 1984, Teixeira da Silva tornou-se um estudioso de assuntos militares e do autoritarismo – tema que analisou, por exemplo, no livro de ensaios O século sombrio (Elsevier). Também voltou a dar aulas na UFF e lecionou na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, da qual é professor emérito. O passado parecia superado.

Mas não. Agora, aos 71 anos, o historiador – que é professor aposentado de história moderna e contemporânea da UFRJ – volta a enfrentar o pesadelo da ditadura. Ele está sendo processado por calúnia pelo general da reserva Álvaro de Souza Pinheiro, que no posto de capitão participou do massacre à Guerrilha do Araguaia nos anos 1970. O processo corre na Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio. Como o general sofre do mal de Alzheimer, não é ele quem está movendo o processo, mas seu filho, o padre Alexandre Pinheiro.

O processo foi motivado por uma entrevista que Teixeira da Silva deu em novembro de 2024 ao portal uol. O assunto não era a Guerrilha do Araguaia. Ele foi chamado para falar da participação dos chamados “kids pretos” – integrantes das brigadas de Operações Especiais do Exército – na tentativa de golpe urdida por Bolsonaro. Esses militares, especializados em missões complexas e de alto risco, participaram dos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, como relatou o jornalista Allan de Abreu na reportagem Os kids pretos, publicada pela piauí em junho de 2023. Apenas quatro meses depois da invasão das sedes dos Três Poderes, o historiador lançou o livro Como (não) fazer um golpe de Estado no Brasil (Edupe), escrito em parceria com Karl Schurster, da Universidade de Pernambuco (UPE).

Na entrevista ao UOL, Teixeira da Silva propôs a dissolução dessas brigadas especiais do Exército, que na sua opinião têm natureza antidemocrática. A menção a Álvaro Pinheiro foi breve. O historiador referiu-se ao general como “o grande instrutor e herói das Forças Especiais [do Exército]” e disse que ele era “um torturador notório, um inimigo da democracia”, a quem coubera treinar centenas de militares. Teixeira da Silva e Pinheiro se conhecem de longa data: eles deram aula na mesma época na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

A intimação para retirada do vídeo chegou para o historiador e o UOL em 3 de dezembro do ano passado. O processo pede indenização de 30 mil reais. Os advogados do general – que não quiseram dar entrevista à piauí – dizem no processo que as acusações feitas por Teixeira da Silva são infundadas e que seu cliente tem uma “conduta ilibada”. O padre Alexandre Pinheiro também foi procurado pela reportagem, mas não quis se manifestar.

Teixeira da Silva diz que baseou suas declarações ao UOL no fato de Pinheiro ter sido comandante de operações durante a repressão à Guerrilha do Araguaia. “Todos os manuais de disciplina e todas as regras de engajamento das Forças Armadas são unânimes em estabelecer que um comandante é responsável diretamente por tudo aquilo que acontece sobre o seu comando”, diz o historiador. “A cadeia de comando leva diretamente ao comandante. Ele é o responsável, seja por ação, seja por omissão.” O livro Brasil nunca mais – que em 1991 fez um inventário das torturas e violações dos direitos humanos durante a ditadura – concluiu que “todos os guerrilheiros presos no decorrer da terceira campanha [do Araguaia] foram mortos, sob tortura ou simplesmente fuzilados”.

Em novembro de 2013, o general Álvaro Pinheiro prestou depoimento na Comissão Nacional da Verdade. Como tantos outros, disse que não teve participação em torturas e que apenas recorreu à “pressão psicológica” em presos. Como tantos outros, afirmou ainda que se orgulhava de ter feito parte das Forças Especiais. Como tantos outros, se recusou a informar onde estariam os corpos dos guerrilheiros mortos no Araguaia.

Com a comissão tentando esclarecer os crimes da ditadura militar, Teixeira da Silva pensou que o Brasil finalmente estava na rota de superação de sua perseverante tradição autoritária. Mas a esperança do historiador foi frustrada com a ascensão da extrema direita em 2018.

“Foi Bolsonaro quem recolocou a ditadura em pauta. Nós tivemos que voltar a estudá-la também como fenômeno de memória criada”, ele afirma. A expressão “memória criada” diz respeito a distorções ou falseamentos da verdade dos fatos. “Quem não viveu o regime não pode ter a noção do que foi.”

Teixeira da Silva acredita que é tarefa dos historiadores apontar os militares que serviram à ditadura, bem como as pessoas que atuaram como torturadores, muitos dos quais seguem anônimos, protegidos pela anistia, sancionada em 1979. Esses crimes nunca punidos, e por vezes celebrados, lançam sua sombra sobre o presente. “Tortura continua acontecendo no Brasil”, diz Teixeira da Silva. “A polícia ainda tortura os pretos, pardos, pobres e miseráveis.”

 

Matéria original, com áudio em https://piaui.folha.uol.com.br/materia/professor-general-ditadura/

Mordaça puída

Mordaça puída

Revista Carta Capital
por Maurício Thuswohl
17/01/2026

 

 

A prisão de um ex-presidente, três generais e um almirante, integrantes do núcleo central da trama golpista que culminou na invasão da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, já entrou para a História como um dos raros acertos de contas do Brasil com agentes militares que atentaram contra a democracia e o Estado de Direito. Mas as tentativas de amordaçar aqueles que buscam lançar luz sobre o período sombrio da ditadura civil-militar, que subjugou o País por 21 anos a partir de 1964, continuam a acontecer.

 

O alvo da vez é Francisco Carlos Teixeira, professor emérito da UFRJ e uma das maiores referências acadêmicas na análise e compreensão da participação das Forças Armadas na política brasileira. Teixeira é réu em um processo por calúnia, difamação e “falsificação da História”, além de enfrentar um pedido de proibição do exercício da docência e uma cobrança de indenização de 30 mil reais,
movido por um general que já se declarou um dos idealizadores da brutal repressão à Guerrilha do Araguaia.

 

Assinada pelo escritório Migueis Advogados, a ação por reparação e danos morais é movida pelo filho do general reformado Álvaro de Souza Pinheiro, hoje incapacitado pelo Mal de Alzheimer. O militar da reserva tornou-se uma celebridade instantânea em 2020, após viralizar nas redes sociais um vídeo em que aparece brandindo uma arma e ameaçando policiais militares, depois de ter sido repreendido por caminhar sem máscara na pista da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, no auge da pandemia. O episódio terminou com a alegação de um “surto psicótico” e com Pinheiro sendo conduzido ao hospital por familiares.

O militar acusa o professor da UFRJ de “falsificação da História” e pede a cassação de seus títulos acadêmicos

O general, que fez carreira como um “kid preto” nas Forças Especiais do Exército, já havia ganhado notoriedade sete anos antes, quando, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, confirmou ter sido um dos mentores do cerco à Guerrilha do Araguaia, operação que resultou em 60 guerrilheiros mortos ou desaparecidos. “Eu fui condecorado, inclusive. Sou absolutamente orgulhoso dessa participação. Como tenente operador, participei do processo decisório do mais alto escalão”, disse. Em outro trecho marcante, PinheiMordaça puída CENSURA Entidades saem em defesa do historiador Francisco Teixeira, alvo de ofensiva judicial de general da reserva  ro é questionado sobre se conheceu Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, um dos combatentes assassinados: “É evidente que conheço nosso amigo Osvaldão, quem não o conhece? Vocês devem conhecer o Osvaldão melhor do que eu hoje em dia; devem saber exatamente o dia em que ele foi para o inferno, lugar de onde nunca deveria ter saído”.

 

Kid preto. Ex-integrante das Forças Especiais do Exército, Álvaro de Souza Pinheiro se vangloriou da violenta repressão à Guerrilha do Araguaia em depoimento à Comissão Nacional da Verdade

Apesar das palavras públicas do próprio general, Teixeira está sendo processado por “falsificação da História” por ter declarado no ano passado, durante uma live na internet, que os “kids pretos” têm no general Pinheiro seu “grande instrutor e herói”, e que este é “um torturador notório e inimigo da democracia”. O professor também afirmou que as Forças Especiais constituem “um ninho de conspiradores anticonstitucionais”. Na ação, os advogados de Pinheiro sustentam que ele “é um conceituado e respeitado militar do Exército Brasileiro, que comandou e instruiu milhares de militares em todo o território nacional”, além de possuir “história e carreira ilibadas” e “diversos elogios e condecorações em seu extenso currículo”.

 

Em quase cinco décadas de carreira, Teixeira é autor ou organizador de mais de uma dezena de livros, muitos dos quais abordam temas como o fascismo e o intervencionismo político das Forças Armadas. A CartaCapital, ele disse acreditar que a ação penal movida em nome do general não é pessoal, mas faz parte de uma ampla operação de silenciamento. “Querem calar intelectuais, pesquisadores e professores que não permitem que o apagamento se abata sobre a história do tempo presente no Brasil. Minha convicção se baseia nos diversos processos movidos contra vários intelectuais, inclusive ex-integrantes das Forças Armadas, que tentam, por meio de exigências financeiras e da obrigação de retratação, silenciá-los.”

 

Prêmio. O general da reserva disse ter recebido uma condecoração pela operação que deixou 60 guerrilheiros mortos ou desaparecidos no Araguaia

 

O professor foi um dos criadores, em 1994, do Laboratório de Estudos do Tempo Presente da UFRJ, que pesquisa a transição política e o processo de redemocratização no Brasil. “Entre nossas linhas de investigação, evidentemente, estão a repressão política, a presença da tortura, os sequestros e o desaparecimento de militantes e de pessoas que resistiam à ditadura”, afirma. A dedicação ao tema vem desde os tempos de estudante na própria UFRJ e já lhe rendeu outras perseguições. “No meu quinto semestre, em 1975, fui acusado de ser agitador comunista e elemento perigoso para a ordem. Foi aí que conheci a repressão pela primeira vez”, lembra. Curiosamente, a denúncia contra o então estudante foi feita por um professor de História Moderna e Contemporânea, cadeira hoje ocupada por Chico, como é chamado pelos colegas e alunos. Em 1978, ele chegou a ser preso. “Agora é a terceira vez. Aos 71 anos, estou retornando aos 19, quando enfrentava a ditadura com outros milhares de brasileiros.”

 

Com a tentativa de golpe bolsonarista, Teixeira passou a ser procurado por diversos veículos de comunicação para comentar o tema. Desde então, vieram as ameaças. “Tenho recebido mensagens anônimas por WhatsApp e e-mail. Uma delas dizia que eu iria levar um tiro de fuzil na testa por defender veados e comunistas. No momento em que você se torna um pesquisador conhecido, que publica livros e aparece em programas de televisão ou rádio, isso mobiliza todos os malucos possíveis contra você”, lamenta.

 

As ameaças e tentativas de silenciamento vêm de um setor específico, não das Forças Armadas como um todo, ressalta o professor. Ele lembra que, em 1994, foi convidado por Fernando Henrique Cardoso a participar do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, onde continuou atuando, sempre de forma não remunerada, nos governos Lula e Dilma. Teixeira também lecionou na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e na Escola Superior de Guerra, onde foi um dos fundadores do programa de pós-graduação em Segurança Internacional. “Fiz bons amigos, inclusive entre generais de quatro estrelas.” Alguns deles confirmaram a ele que está em curso uma tática militar conhecida como Operação Psicológica Adversa, direcionada contra aqueles que trabalham com a memória recente do Brasil. “Se eu for condenado, nenhum historiador, cientista político, sociólogo, pesquisador do direito ou jornalista terá mais liberdade”, alerta.

“Se eu for condenado, nenhum pesquisador ou jornalista terá mais liberdade”, alerta Teixeira

Essa percepção gerou uma onda de solidariedade a Teixeira, que se espalhou por universidades e organizações da sociedade civil. “Qualquer investida que procure restringir o pensamento, reescrever fatos históricos por vias coercitivas ou constranger pesquisadores deve ser firmemente repudiada”, afirma nota divulgada pela Associação Nacional de História, que ressalta ainda que a Justiça não é “o fórum adequado para debater análises, teorias e pesquisas históricas”. Já o Instituto Brasileiro de Estudos Políticos manifesta “veemente repúdio à tentativa de calar uma voz competente por parte de um oficial que serviu nos tempos da ditadura”. O Ibep classifica a ação movida por Pinheiro como “risível”. “Trata-se de uma reação dos que estiveram no porão da ditadura aos avanços, ainda que tardios, das condenações dos que praticaram e praticam crimes de lesa-humanidade.”

 

Para Luiz Eduardo Motta, também professor da UFRJ, os militares brasileiros, se comparados aos vizinhos sul-americanos, foram os que menos mudaram seu comportamento desde o fim da ditadura. “A Comissão da Verdade provocou uma reação acintosa de parte dos militares ao revirar questões dos porões da ditadura que até então permaneciam ocultas”, afirma. Motta avalia que “esse general de pijamas não vai conseguir seu intento” de restaurar a censura característica do regime militar. “Esse sujeito quer simplesmente tolher a produção de conhecimento. Mas, por mais que isso agrade ou não a determinados setores, nós, pesquisadores que analisamos o período da ditadura, a ascensão da extrema-direita, o fascismo ou as práticas ainda permanentes de caráter autoritário nas corporações militares, incluindo a Polícia Militar, continuaremos realizando as nossas pesquisas”, conclui.