Europa apoia guerra dos EUA e Israel contra Irã; Espanha diverge

Europa apoia guerra dos EUA e Israel contra Irã; Espanha diverge

Lucas Pordeus León – Repórter da Agência Brasil
Publicado em 05/03/2026 – 13:31
Brasília

 

 

Com exceção da Espanha, os principais países da Europa têm dado apoio político, ou mesmo de defesa, aos esforços de Israel e dos Estados Unidos (EUA) na guerra de agressão contra o Irã para promover “mudança de regime”.   

O Reino Unido, a França e Alemanha não condenaram os ataques contra Teerã, que violam o direito internacional, mas buscaram justificar a guerra atribuindo ao Irã a responsabilidade pela deflagração do conflito. As potências europeias ainda exigem que o país persa aceite as condições impostas por EUA e Israel.

O direito internacional permite o uso da força apenas por meio de autorização do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

O Reino Unido não condenou os ataques contra o Irã, mas condenou as retaliações de Teerã contra bases dos EUA no Oriente Médio. Ao mesmo tempo, Londres fornece suporte logístico das bases britânicas na região para Washington.

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França, ao mesmo tempo que promete aumentar o próprio estoque de ogivas nucleares, condena o programa nuclear iraniano, que seria para fins pacíficos. O presidente Emmanuel Macron enviou dois navios de guerra para o Oriente Médio, a fim de participar de “operações defensivas” europeias.

Alemanha disse que não é hora de dar “lições” aos parceiros que agrediram o Irã; que Berlim compartilha dos objetivos dos EUA e de Israel de derrubar o governo de Teerã, se colocando ainda para contribuir com a “recuperação econômica do Irã”. 

Em declaração conjunta, a Alemanha, França e o Reino Unido exigiram o fim dos “ataques imprudentes” do Irã e informaram que tomarão as ações “defensivas” necessárias para “destruir a capacidade do Irã de lançar mísseis e drones em sua origem”.

Por sua vez, Portugal deu autorização para os EUA usarem as bases militares dos portugueses no Açores, e a Itália tem costurado apoio de defesa aos países do Golfo, além de criticar a “repressão” do Irã contra a população civil.

Europa assumiu um lado

O historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Francisco Carlos Teixeira da Silva afirmou à Agência Brasil que a Europa, com exceção da Espanha, tomou posição na guerra a favor dos EUA e de Israel.

“No momento em que a Europa denomina o governo e o Estado iranianos como criminosos, em plena guerra, ela já assumiu um lado. Se esse lado é de participação efetiva na guerra, ai é outra coisa”, comentou.

Teixeira acrescenta que, em nenhum momento, França, Alemanha e Reino Unido, que são membros permanentes do Conselho de Segurança, convocaram alguma reunião na ONU.

“Isso atende claramente a posição americana de não trazer a discussão para as Nações Unidas. Não há nem mesmo uma condenação ética da guerra como ela foi travada”, acrescentou.

O especialista destaca que a posição da Europa é preocupante porque o ataque contra o Irã ocorreu em meio às negociações com os Estados Unidos.

“Isso transforma o direito e a legalidade internacionais em algo extremamente frágil porque negociar com o adversário não tem mais nenhum sentido”, completou o historiador.

Em resposta ao apoio europeu à guerra, a Guarda Revolucionária do Irã afirma que navios dos EUA, Israel e de países europeus não devem cruzar o Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do comércio mundial de petróleo.

Barganha com os EUA

Para o professor da UFRJ Chico Texeira, os países europeus tentam barganhar posição junto a Washington, “às custas do Irã”, em meio às ameaças de Trump de tomar um território europeu: a Groenlândia

Para o especialista, a União Europeia tenta mostrar aos EUA que são aliados valiosos, que vão apoiar Israel, para, em troca, os EUA deixá-los em paz, não tomarem a Groenlândia, nem desmontarem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

“É uma velha política tradicional da Europa. Mas o que a gente viu até agora é que a Europa se tornou dispensável. Os Estados Unidos não precisam da Europa”, ponderou.

Para Teixeira, a posição mais pró-EUA é da Alemanha, onde o premier Friedrich Merz foi à Casa Branca em meio ao conflito. 

“Mostrou a subserviência da Alemanha, inclusive com o Merz falando que o governo do Irã é assassino e bárbaro, coisa que ele jamais disse do massacre de Israel em Gaza”, completou.

O “não à guerra” da Espanha

O governo espanhol de Pedro Sánchez teve posição divergentes dos seus parceiros europeus, fazendo duras críticas à guerra movida por Donaldo Trump e Benjamin Netanyahu, alegando que não se trata de apoiar o regime dos aiatolás.

“A questão, no entanto, é se estamos ou não do lado do direito internacional e, portanto, da paz”, disse Sánchez, lembrando dos fracassos da Guerra do Iraque, movida pelos EUA.

“A Guerra do Iraque levou a um aumento dramático do terrorismo jihadista, a uma grave crise migratória no Mediterrâneo Oriental e a uma subida generalizada dos preços da energia e, consequentemente, do custo de vida”, disse.

A posição do primeiro-ministro espanhol fez o jornal britânico The Financial Times destacar que Sanchez disse ao presidente Trump “o que nenhum outro líder europeu se atreve a dizer”.

A posição da Espanha irritou Trump, que ameaçou cortar relações comerciais com Madri. Em seguida, o governo dos EUA recuou, informando que a Espanha teria concordado em cooperar com a guerra. Porém, o governo espanhol negou “categoricamente” que a posição em relação à guerra tenha mudado.

Portugal e Itália

O governo de Portugal, por sua vez, concedeu acesso aos Estados Unidos (EUA) às suas bases militares nos Açores, apesar de destacar que não está envolvido nos ataques e cobra do Irã o fim do programa nuclear.

“Portugal foi formalmente instado a conceder autorização para a utilização da base, tendo o governo dado uma autorização condicionada”, informou o primeiro-ministro português Luís Montenegro.

A Itália também não condenou a agressão contra o Irã, mas sim as retaliações de Teerã que atingiram bases dos EUA no Oriente Médio, fornecendo apoio aos países do Golfo para suas defesas.

O governo italiano ainda prestou solidariedade à “população civil” iraniana que, “corajosamente”, exige o respeito a seus direitos “apesar de sofrer repressão violenta e injustificável”.

Quando o rabo abana o cão

Quando o rabo abana o cão

Os ataques desta madrugada,  28 de fevereiro,  longamente planejados, de Israel e Estados Unidos, contra o Irã, marcam uma profunda ruptura na ordem mundial.

A decisão de atacar foi tomada em meio  a um processo internacional, mediado por países como Turquia, Oman e Emirados, de negociações entre as partes. Tais ataques remetem claramente ao ataque do Império do Japão contra Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941, quando negociações estavam em curso. Os Estados Unidos denominaram este dia como o “Dia da Infâmia”. Hoje vivemos o mesmo desprezo dos fascistas históricos  pelas regras e normas do Direito Internacional.

A motivação em Washington e Tel Aviv são duplamente condenáveis: de um lado, mentem ao atribuir capacidade nuclear iminente ao Irã. Trata-se de uma mentira , contra uma realidade factual, usada para efeito doméstico, que ignora as ofertas de acordo existentes da parte de Teerã e o fato de que foi Trump que rompeu o acordo de limitação do enriquecimento de urânio com Irã. Atacar enquanto negocia demonstra má fé, e tornam os Estados Unidos um Estado pouco confiável e com o qual negociar é extremamente perigoso.  A outra justificativa, a mudança de regime – um velho hábito de Washington na América Latina – não só é ilegal, como ainda ineficaz e muito pouco efetivo, como nos mostram os ataques contra o Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia. Além de destruição e mortes, as tentativas de mudança de regime resultaram no advento de regimes ainda mais instáveis após a intervenção do Ocidente.   Da mesma forma, os argumentos sobre defesa dos direitos humanos soam risíveis. Não só tais direitos são pisoteados pelos seus pretensos defensores, em Gaza ou na infame “Alligator  Alcatraz Camp” do ICE, como, ainda, são os dirigentes de ambas as nações atacantes,  Trump e Netaniahu, contumazes violentadores de direitos básicos, incluindo de crianças, seja em Gaza, seja em mansões na Flórida.

Todos argumentos de justificativa dos ataques são, portanto,  inaceitáveis e falsos. Na verdade, trata-se de um notável caso de “rabo que abana o cachorro”: as eleições gerais em Israel e nos EUA, entre outubro e novembro de 2026, ao lado do fato que Trump e Netaniahu são alvo de investigações criminais, iluminam, bem mais, as motivações dos ataques. São ambos líderes acusados de obstruir a justiça, de corrupção e, mesmo, no caso de Trump,  de pedofilia e tráfico sexual. Claro, seria uma excelente oportunidade para controlar o mercado mundial de petróleo, fechar o abastecimento de energia da China, isolar a Rússia e de paralisar os BRICs. Mas, não podemos deixar de sublinhar o primado da política interna, neste caso,  sobre a política externa. É o rabo que abana o cão em serviço de agendas autoritárias e corruptas de ambos os políticos. A superioridade da força criou uma hubris, a arrogância que mata e ao final volta-se contra seu autor, que transformou o campo das relações internacionais em um espaço sem lei.

Especialista Teixeira: A agressão contra o Irã provou que as negociações de paz com os EUA são perigosas.

Especialista Teixeira: A agressão contra o Irã provou que as negociações de paz com os EUA são perigosas.

A agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã demonstrou que todas as tentativas de normalizar as relações com Washington estão fadadas ao fracasso. O governo americano é capaz de atacar mesmo enquanto continua formalmente as negociações para resolver a crise, disse à TASS o historiador e cientista político brasileiro Francisco Carlos Teixeira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“O ataque durante as negociações demonstra a má-fé [de Washington] e comprova que os Estados Unidos são um negociador pouco confiável, com quem é extremamente perigoso dialogar”, observou ele.

Segundo o analista, a Casa Branca mente ao afirmar que os EUA enfrentam uma ameaça do Irã. “Essa é uma mentira […] que [as autoridades americanas] usam para seus próprios fins internos”, enfatizou o cientista político. “A outra justificativa [para a agressão] — a mudança de governo — é uma prática tradicional de Washington na América Latina. Não só é ilegal, como também ineficaz, […] como comprovam os ataques ao Iraque, Afeganistão, Síria e Líbia”, destacou Teixeira.

Os Estados Unidos e Israel lançaram uma operação militar contra o Irã. Grandes cidades iranianas, incluindo Teerã, foram atingidas. A Casa Branca justificou o ataque citando supostas ameaças nucleares e de mísseis por parte do Irã.

A Guarda Revolucionária Islâmica anunciou uma operação retaliatória em larga escala. Foram relatados lançamentos de mísseis e drones vindos do Irã, e sirenes de alerta aéreo soaram na região de Tel Aviv. Segundo a agência de notícias Mehr, bases militares americanas no Bahrein, Jordânia, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita também foram atingidas.

Os países da região estão fechando seu espaço aéreo e as companhias aéreas estão suspendendo voos.

Publicado em: https://tass.ru/mezhdunarodnaya-panorama/26592627