Os ataques desta madrugada, 28 de fevereiro, longamente planejados, de Israel e Estados Unidos, contra o Irã, marcam uma profunda ruptura na ordem mundial.
A decisão de atacar foi tomada em meio a um processo internacional, mediado por países como Turquia, Oman e Emirados, de negociações entre as partes. Tais ataques remetem claramente ao ataque do Império do Japão contra Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941, quando negociações estavam em curso. Os Estados Unidos denominaram este dia como o “Dia da Infâmia”. Hoje vivemos o mesmo desprezo dos fascistas históricos pelas regras e normas do Direito Internacional.
A motivação em Washington e Tel Aviv são duplamente condenáveis: de um lado, mentem ao atribuir capacidade nuclear iminente ao Irã. Trata-se de uma mentira , contra uma realidade factual, usada para efeito doméstico, que ignora as ofertas de acordo existentes da parte de Teerã e o fato de que foi Trump que rompeu o acordo de limitação do enriquecimento de urânio com Irã. Atacar enquanto negocia demonstra má fé, e tornam os Estados Unidos um Estado pouco confiável e com o qual negociar é extremamente perigoso. A outra justificativa, a mudança de regime – um velho hábito de Washington na América Latina – não só é ilegal, como ainda ineficaz e muito pouco efetivo, como nos mostram os ataques contra o Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia. Além de destruição e mortes, as tentativas de mudança de regime resultaram no advento de regimes ainda mais instáveis após a intervenção do Ocidente. Da mesma forma, os argumentos sobre defesa dos direitos humanos soam risíveis. Não só tais direitos são pisoteados pelos seus pretensos defensores, em Gaza ou na infame “Alligator Alcatraz Camp” do ICE, como, ainda, são os dirigentes de ambas as nações atacantes, Trump e Netaniahu, contumazes violentadores de direitos básicos, incluindo de crianças, seja em Gaza, seja em mansões na Flórida.
Todos argumentos de justificativa dos ataques são, portanto, inaceitáveis e falsos. Na verdade, trata-se de um notável caso de “rabo que abana o cachorro”: as eleições gerais em Israel e nos EUA, entre outubro e novembro de 2026, ao lado do fato que Trump e Netaniahu são alvo de investigações criminais, iluminam, bem mais, as motivações dos ataques. São ambos líderes acusados de obstruir a justiça, de corrupção e, mesmo, no caso de Trump, de pedofilia e tráfico sexual. Claro, seria uma excelente oportunidade para controlar o mercado mundial de petróleo, fechar o abastecimento de energia da China, isolar a Rússia e de paralisar os BRICs. Mas, não podemos deixar de sublinhar o primado da política interna, neste caso, sobre a política externa. É o rabo que abana o cão em serviço de agendas autoritárias e corruptas de ambos os políticos. A superioridade da força criou uma hubris, a arrogância que mata e ao final volta-se contra seu autor, que transformou o campo das relações internacionais em um espaço sem lei.
A agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã demonstrou que todas as tentativas de normalizar as relações com Washington estão fadadas ao fracasso. O governo americano é capaz de atacar mesmo enquanto continua formalmente as negociações para resolver a crise, disse à TASS o historiador e cientista político brasileiro Francisco Carlos Teixeira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
“O ataque durante as negociações demonstra a má-fé [de Washington] e comprova que os Estados Unidos são um negociador pouco confiável, com quem é extremamente perigoso dialogar”, observou ele.
Segundo o analista, a Casa Branca mente ao afirmar que os EUA enfrentam uma ameaça do Irã. “Essa é uma mentira […] que [as autoridades americanas] usam para seus próprios fins internos”, enfatizou o cientista político. “A outra justificativa [para a agressão] — a mudança de governo — é uma prática tradicional de Washington na América Latina. Não só é ilegal, como também ineficaz, […] como comprovam os ataques ao Iraque, Afeganistão, Síria e Líbia”, destacou Teixeira.
Os Estados Unidos e Israel lançaram uma operação militar contra o Irã. Grandes cidades iranianas, incluindo Teerã, foram atingidas. A Casa Branca justificou o ataque citando supostas ameaças nucleares e de mísseis por parte do Irã.
A Guarda Revolucionária Islâmica anunciou uma operação retaliatória em larga escala. Foram relatados lançamentos de mísseis e drones vindos do Irã, e sirenes de alerta aéreo soaram na região de Tel Aviv. Segundo a agência de notícias Mehr, bases militares americanas no Bahrein, Jordânia, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita também foram atingidas.
Os países da região estão fechando seu espaço aéreo e as companhias aéreas estão suspendendo voos.
Até que ponto o fascismo se reinventa e permanece, no entanto, fascismo? O núcleo duro do fascismo reside na doutrina do “inimigo interno”, um outro conveniente para justificar todos os atos brutais de destruição dos direitos e garantias civis. O militarismo, o nacionalismo excludente, o mito e o culto da personalidade – do Führer, Duce, Conductor ou do “Mito” -, o partido-Estado como máquina, a utopia regressiva de uma falsa idade do ouro perdida, todos estes elementos fundamentais ao constructo “fascismo” possuem uma conexão direta com a noção de “inimigo interno”.
Historicamente, o povo judeu foi ressignificado contemporaneamente – através da reapropriação do fundo cristão medieval de ódio ao povo dito “Cristocida”, embora o domínio da Justiça local fosse romano – como o Outro por excelência vaticinado ao sacrifício. O antissemitismo é, sempre, um alerta do fascismo que avança. Hoje o fascismo continua excludente, homicida e exterminacionista. Judeus continuam sendo o estranho/estranhado/estrangeiro, e por vezes a força do socioleto fascista – dito de forma redutora como “fakenews” -, acaba por contaminar a própria análise social.
Nem mesmo cientistas sociais e historiadores são imunes em face da novilíngua e seu caráter dissociativo da realidade. Em especial aqueles que não unem produção acadêmica com intervenção social, moldando sua atuação para o espetáculo das redes sociais. No entanto, outros grupos sociais foram somados ao núcleo de “inimigos internos”, como negros, indígenas e latinos, apontados como os “feios”, degenerados, os que comem animais domésticos e transmitem doenças contagiando a raça superior branca. O Brasil é, hoje, um laboratório de experimentação do (neo/pós/)fascismo.
O socioleto fascista busca normalizar o racismo, identificar o outro como a origem do comportamento criminoso e plantar a cizânia no campo antifascista. Ninguém tem a exclusividade da condição de vítima, embora o número de russos, chineses, judeus ou poloneses mereça destaque. Hoje todos que não sejam dolicocéfalos louros de olhos azuis correm o risco do carimbo de “inimigos”, portanto aquele que deve ser separado, excluído e, quando possível, exterminado. Temos hoje que ampliar a luta antirracista: não há um racismo índice único ou uma luta específica.
O racismo é uma hidra de mil cabeças. O antissemitismo é um racismo. O “antipretismo”, contra negros e pardos, é um racismo. O desprezo genocida aos povos indígenas, como foi feito contra os cinta-larga, os kren-akarore e os yanomamis, é produto do racismo. A Islamofobia é uma forma de racismo e o ódio ao povo LGBT é uma forma de racismo. Não existe, assim, uma luta específica contra “um” tipo de racismo.
Devemos, TODXS, nos unir na luta antifascista, sem perdão com os racistas. Tal luta deve começar nas escolas, nossa última trincheira. A história da escravidão, do genocídio indígena e do Holocausto são temas insuperáveis de uma Educação emancipadora. Ninguém terá um passe de imunidade perante supremacistas brancos ou brancos (auto)imaginários. A luta antirracista é uma tarefa de todos, imediata e sem trégua.
As razões da Senhora Chomsky. Não bastam! Não houve desculpas sinceras, apenas pretensão de ingenuidade e a alegação de desconhecimento, de supercialidade de relações, por parte de um especialista em semiologia, filósofo; repito, não basta, nem muito menos etnia e origens culturais e nacionais são justificativas.
Em verdade, nós cientistas sociais , sempre vemos quem é filosoficamente nosso “Outro”.
Há inimigos de classe irrecuperáveis, pessoas que sujam ao toque, pedofilia, estupro e violência com os fracos são imperdoáveis. E ainda os serviços ao Mossad da parte do criminoso, que eram bem conhecidos.
Houve processo e testemunho de dezenas de mulheres e adolescentes que foram descartados e abandonados.
Na vida fazemos escolhas, incluindo a escolha de não escolher e isso tem um peso, implica em julgamentos éticos posto que geram sofrimento humano. Eu bem sei isso e carrego as consequências de não acreditar no silêncio obsequioso e no lado “família” de torturadores, pedófilos e estupradores .
Durante um bom tempo, depois da Segunda Guerra Mundial, a historiografia clássica sobre o fascismo – como Trevor-Roper ou Renzo de Felice[1] – consideravam a experiência brutal fascista, como um fenômeno único, encerrado no tempo, e fruto de condições históricas especificas – Primeira Guerra Mundial, Tratado de Versalhes e a Grande Depressão – portanto historicamente únicas, que jamais poderia ser repetida, o que, por sua vez, resultava na impossibilidade, em nossos dias, de uma nova fase do fascismo.
A primeira dissidência, de porte, que emerge nos estudos políticos e sociais, é a análise de Nicos Poulantzas, com um minucioso estudo sobre as classes sociais e as formas de organização do Estado[2]. Para Poulantzas, para além do Estado Liberal-Representativo e do Estado de Direito do Socialismo realmente existente, tínhamos, então, no espectro da Direita política, os chamados “Estados de Exceção”. Estas teriam três formas clássicas de organização: as ditaduras – civis, pessoais ou militares-, o bonapartismo, a forma política de autonomia do político numa condição de exaustão das forças em embate, o que Antonio Gramsci denominaria de “cesarismo”, e, por fim, a mais radical das formas de Estado de Exceção, o fascismo. Assim, com o marxismo renovado, através da incorporação dos estudos de Gramsci, o fascismo deixava de ser uma triste relíquia histórica, devidamente encerrado em 1945, para ser uma forma de Estado de Exceção na sua expressão mais radicalizada da luta de classes, frações de classe e grupos sociais em momentos de crise do capitalismo[3].
Os estudos marxistas sobre o fascismo foram, entretanto, seriamente eclipsados por um bom tempo pela intensa divulgação, durante a Guerra Fria (1945-1991), dos estudos em torno da chamada “Teoria do Totalitarismo”. Os trabalhos iniciais de Herman Rauschning (1887-1982)[4] e Carl Friederich (1901-1984)[5] foram retomados, reescritos com clareza e estilo, por Hannah Arendt (1906-1975), obtendo grande sucesso nas ciências políticas anglo-saxãs, e daí espalhando-se pelos inúmeros departamentos de ciências sociais pelo mundo, em especial durante a década de 1960 com a invasão da Tchecoslováquia pela URSS e seus aliados, encerrando a experiência de um socialismo “de face humana”[6]. Ao mesmo tempo a CIA e o Departamento de Estado, dos Estados Unidos, trabalharam intensamente na divulgação da “Teoria do Totalitarismo” – que operava uma redução conceitual entre fascismo e o chamado “stalinismo”, confundindo a clássica díade Direita/Esquerda e justiçando a atitude agressiva de Washington como continuidade da luta da Segunda Guerra Mundial[7].
A extensa expansão das ditaduras – pessoais, civis ou militares – a partir do final da década de 1950 – patrocinadas pelos Estados Unidos na Guatemala, Vietnã, Brasil, Argentina e Chile, entre outros -, coloca na pauta dos cientistas sociais e historiadores o debate sobre a natureza das ditaduras e suas relações com o fascismo. A partir de 1973, a crise das ditaduras – Portugal com a Revolução dos Cravos de 1974, Grécia em 1974, Espanha a partir de 1975, e, em seguida, os processos de “abertura política” por toda América Latina – acelerou e aprofundou o debate acadêmico sobre os regimes de exceção[8].
Abriu-se, então, um vasto debate sobre a natureza, singularidades e regularidades das ditaduras militares – como na Argentina, Brasil e Chile – e das ditaduras sobreviventes do pré-Segunda Guerra Mundial, como Portugal e Espanha, de nítido feitio fascista[9]. Operou-se, então, uma clara distinção – reforçando os estudos de Poulantzas – entre “ditadura militar”, algumas formas de bonapartismo – a partir da releitura do “18 Brumário” de Karl Marx[10] – e o caráter “fascista” das ditaduras sobreviventes em Lisboa e Madrid, bem como os casos históricos da Itália e Alemanha. Em especial a leitura marxiana do bonapartismo punha em evidência o papel das classes sociais, das alianças e dos blocos socais, bem como a manipulação de setores do “lumpenproletariat” pelas camadas dirigentes do Estado em detrimento das classes trabalhadoras.
A partir de então aclarou-se a distinção entre ditadura – militar, pessoal – e o regime fascista.
O fim da Guerra Fria e a crise das ditaduras – tanto na Europa quanto na América Latina – apontava, então, para o fim dos regimes de exceção e o pleno vigor da forma liberal-representativa. Para muitos, açodados, tratava-se do “fim da História”, posto que não haveria mais alternativa de futuro ao Estado Liberal-representativo e a gestão desregulada do chamado “livre mercado”, implicando, ao lado, da crise dos Estados “socialistas como realmente existiam” e da crise das ditaduras – as relíquias dos anos de 1920 e 1930 e as “novas” ditaduras latino-americanas – também entrariam em colapso a forma de “Wellfare State”, um Estado regulado e preocupado com o bem-estar do indivíduo “from bloson to the tumb” visando tolher a expansão do socialismo.
Assim, ao lado do maremoto causado pelo fim da Guerra Fria e do socialismo real, entre 1989 e 1991, colapsavam as ditaduras. Contudo, também as democracias liberais-representativas estavam ameaçadas. Estas, criticadas por dentro, submergidas em uma crescente maré conservadora que, erroneamente, foi então considerada no seu ápice nos governos Thatcher (1979-1990), Reagan (1981-1989) e Kohl (1982-1998) começariam um largo processo de desmonte do Estado de Bem-Estar Social e de medidas de “multiculturalismo” e tolerância com estrangeiros e migrantes que tinham amenizado os choques e embates sociais durante a Guerra Fria.
Na verdade, a maré conservadora estava apenas começando.
Depois de 1991 e muito especialmente após a crise de 2008, a maré conservadora passou a aprofundar-se e as características conservadoras – contrárias às mudanças mais avançadas da pauta progressista, mas concordes nos méritos da democracia liberal-representativa – que de forma muito veloz radicalizou-se em direção às formas mais radicais da Extrema-Direita. Neste contexto, antigos grupúsculos que apenas sobreviveram durante a Guerra Fria e o pós-1991, na Europa, e novas agremiações na mesma Europa, Estados Unidos e América Latina, passaram a representar uma força fundamental, por vezes dominante, no cenário político. Ao contrário dos partidos conservadores tradicionais da Direita – os Conservadores britânicos, a Democracia Cristã alemã, o próprio “Centrão” no Brasil, o aprofundamento do caráter conservador provocou uma deriva em direção ao Reacionarismo político, ou seja, uma desconstrução do Estado Liberal e de sua expressão econômico-social, o Estado de Bem-Estar Social. Tal “deriva em direção à Extrema-Direita” precipitou toda a Direita do espectro político na destruição das próprias bases do liberalismo social, político econômico. Em alguns países – Hungria, Estados Unidos, Polônia, Ucrânia, Brasil e Argentina – os setores radicalizados da Direita assumiram o caráter autoproclamado “revolucionário” de destruição das estruturas do Estado Liberal, apresentando-se já claramente como uma ressurgência do fascismo. Da oposição ao Socialismo e, em seguida ao Wellfare-State, passava-se rapidamente à oposição ao próprio Estado liberal.
Apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro fazem manifestação pelo fechamento do Congresso e do STF em 2021.
Após um longo período de prosperidade no Ocidente – os chamados “Trinta gloriosos anos”, algo entre 1945 e 1973 – os países do capitalismo avançado adotaram políticas ultraliberais que após 1989 e 1991, ao lado do fim do “socialismo realmente existente”, fez avançar o mal-estar social derivado de tais políticas. A propalada ideia da (re)unificação global (ou simplesmente “Globalização”) sob o Estado liberal-representativo e a economia de mercado autorregulável, apresentavam-se como únicas opções em todo o mundo. Muitos, desavisados, festejavam o “fim da História”. Não haveria nenhuma alternativa mais ao liberalismo desregulador e o chamado “livre mercado”, tornado num dogma quase antropomórfico.
Imensas populações, desde a Europa até os confins da América Latina, viram-se abandonadas e à mercê de políticas verdadeiramente anticivilizatórias em áreas como trabalho, saúde, educação e aposentadorias. Mesmo partidos e movimentos sociais foram rapidamente convertidos a meros gestores, distantes, da “coisa existente”, renunciando ao seu papel de transformação e de ação social. O inicial movimento “multiculturalista” abandonou suas bases sociais e transformou-se numa afirmação única da promoção de gênero e de etnia sem bases sociais, atribuindo a consciência social a um vago “lugar de fala”. As bases sociais, e classista, da desigualdade social e da exploração econômica foram relegadas a um distante segundo lugar nas preocupações de governos, partidos e movimentos sociais. No entanto, o racismo, o sexismo mercantilizado, a exploração de populações pobres na África e América Latina e o abandono de populações fragilizadas – como os indígenas na América Latina, os palestinos no Oriente Médio, os negros pobres nos Estados Unidos, começaram a beirar o nível de genocídio, retrocedendo a dignidade humana ao nível das perseguições contra judeus, o povo Roma & Sinti, doentes e incapacitados, negros e pardos, o povo LGBT+ nos anos de 1930 no Terceiro Reich.
A desmobilização das Esquerdas – tanto pela crise do socialismo real como pelo dogmatismo do ultraliberalismo e a invasão do culturalismo sem classes sociais – e a ausência de um diagnóstico mais global, incisivo e com lastro histórico sobre o avanço das Direitas radicais, resultou num desarme organizativo e ideológico dos movimentos sociais. Estes não conseguiram, em tempo, perceber que por trás das teorias de desregulação havia um claro avanço de uma ideologia muito mais perigosa, capaz de tragar tanto o Estado de Bem-Estar Social quanto o próprio liberalismo político. Tratava-se, desde 1991, de reunir os diversos grupúsculos, muitas vezes em lutas internas, dos remanescentes dos fascismos históricos – aqueles que existiram realmente entre 1922 e 1945 – e apresentar-se como uma resposta política e um projeto de poder viáveis para o mundo no século XXI.
Para garantir a viabilidade, no século XXI, da agenda do fascismo histórico tornou-se necessária uma releitura dos elementos componentes fundamentais do próprio fascismo histórico. Assim, podemos destacar cinco marcadores fundamentais do fascismo, o que Umberto Eco denominou de “fascismo eterno”[11], a saber: o militarismo, o patriotismo retórico, o racismo, o imperialismo e a negação de qualquer possibilidade de alteridade social, de gênero e de etnia[12].
Evidentemente tais “pilares” do fascismo histórico, para poder revestir-se de algum poder de atração, deveriam assumir sua contemporaneidade, em especial sua contemporaneidade tecnológica-digital típica do nosso tempo. Assim, o militarismo deveria ser lido em duas chaves: o respeito pelas hierarquias e sua colonização da sociedade civil pelo sentido de ordem e disciplina – o que no fascismo histórico seria, exatamente, o chamado “Führerprinzip” – o direito de mando do líder -, substituindo os fundamentos da representação na Teoria de Estado típica do pensamento liberal. Em seguida a propagação do chamado “patriotismo retórico”, aquele de vestir-se das cores das bandeiras nacionais e outros símbolos da Nação – desde o “renascimento alemão”, a emergência da “Nação ucraniana”, passando pelo “MAGA” até as massas bolsonaristas brasileiras ou a recusa à “casta” na Argentina – visando confundir e enganar a população numa negação formalista da chamada “Globalização”, apresentando-se como um “patriotismo sem povo”, exclusivamente voltado para a sacralização de símbolos abstratos e guardando silêncio sobre as condições de vida, de justiça social e racial, sem verdadeiramente englobar a “Nação” no patriotismo retórico usado como biombo e cortina de fumaça.
Tratava-se de criticar a Globalização neoliberal de um lugar na Extrema-Direita, insuflando a ideia de um patriotismo que se referenciava em valores e símbolos estrangeiros, nos países periféricos, ou na reivindicação de um destino manifesto nos países centrais. O racismo emerge, mais uma vez, com força nos países etnicamente e historicamente “brancos” e ocidentais. Na Alemanha, na França, na Espanha, em Portugal, na Ucrânia ou Estados Unidos avançam sentimentos de exclusão de um outro colocado como radicalmente diferente por sua etnia, sua religião, idioma, cultura… Por vezes, criaram versões claramente mentirosas sobre os grupos étnicos minoritários – como a afirmação que os imigrantes são todos criminosos, são sexualmente perversos e, simplesmente, que “…eles comem cães e gatos”, como Donald Trump o fez na campanha eleitoral de 2024 nos Estados Unidos[13]. O fundamental, como foi feito na Itália e na Alemanha nos anos de 1920 e 1930, era construir um “outro” radicalmente diverso, e na verdade, antagônico ao sentido de ser “patriota”. Este é um elemento central na caracterização do fascismo: a negação completa da humanidade do Outro, a recusa da alteridade social, étnica, de gênero ou cultura para mais facilmente aniquilar um Outro inumano, dito “sub-humano” no fascismo histórico – “Untermenschen” – e, agora, na ressurgência fascista, como um “invasor criminoso” desprovido de humanidade[14].
Vítimas da COVID enterradas em valas coletivas devido ao colapso do sistema funerário em Manaus, Brasil, 2021. A justificativa de mortes a partir da ideia de “sobrevivência dos mais fortes” é comum em experiências fascistas. Crédito: Chico Batata/Divulgação.
A perfeita repressão/exclusão necessitava, e necessita hoje, retirar do Outro a condição humana para reprimir sem culpa. Ao negro das colônias, que o fascismo italiano ergueu como o completo oposto da “raça italiana” ou ao judeu, apresentado pelo nacional-socialismo alemão como “a origem de todos os males”, construiu-se hoje um negro, pardo, mestiço ou mesmo oriental na condição de imigrante ilegal, o chamado “indocumentado”, que traria doenças, perversidade, crime, terrorismo e negação do cristianismo ao coração do Ocidente. Cada fascismo, ao seu tempo, construiu o seu próprio judeu, aproveitando-se das condições históricas existentes para dar credibilidade a esse Outro desumanizado. O judeu do fascista pode ser o judeu, mas pode também ser o Roma & Sinti, o negro e o pardo, o indocumentado, o árabe, a mulher emancipada ou o povo LGBT+.
Alguns, como o teórico fascista contemporâneo Renaud Camus[15], chega a “denunciar” um movimento silencioso, organizado e sistemático a realizar a “Grande Substituição”, ou seja, tornar a Europa muçulmana e mestiça e os Estados Unidos uma nação indígena, latina e católica, contra o padrão clássico “Wasp” – branco, anglo-saxão e protestante.
Por fim, naqueles países atingidos pela grande revolução geopolítica atual – o renascimento da Rússia no lugar da URSS e os conflitos de readequação de fronteiras e, principalmente, a ascensão acelerada da China Popular como um novo polo de poder político, econômico, tecnológico e militar, cresce a ansiedade de restauração da primazia imperialista anglo-saxã, tão bem expressa na política externa de Donald Trump. Além disso, a ascensão de antigos países coloniais ou semicoloniais, como Índia, Brasil, México, África do Sul, Turquia e Vietnã – muitos organizados na associação Brics+ – acelera o sentimento de urgência de ação dos velhos centros de poder, reatualizando o Imperialismo nas relações internacionais numa nova versão potencializada do chamado agora “realismo agressivo”, pelo qual os países como Estados Unidos, França, Reino Unido devem agir nas relações internacionais sem nenhum respeito pelas regras pactuadas nos organismos de gestão mundial – ONU, OMC, FMI, BM, OMS, OEA entre outras – e mesmo projetando sua soberania – ou seja, suas leis e suas políticas – por sobre a soberania das demais nações, como no atual caso da crise diplomática entre Washington e Brasília. Esse é, exatamente, o sentido do imperialismo do nosso tempo presente: a projeção sem restrições de suas leis e vontades para além das próprias fronteiras, em especial visando à instalação das elites alienadas e entreguistas no poder e, assim, facilmente apoderando-se das riquezas naturais dos países periféricos. Terra férteis, água, metais raros e estratégicos, fontes de energia fósseis compõe o novo conceito de “Lebensraum”, de espaço vital, conforme expresso pelo novo imperialismo dos polos fascistas[16].
Neste contexto, o globalismo neoliberal, que tipicamente dominou o cenário internacional entre 1991 a 2008, como uma verdade indiscutível sobre os méritos do livre mercado, da livre circulação de mercadorias e de capitais – embora não de pessoas -, entra em colapso na crise mundial de 2008. A ansiedade, medo e mal-estar, gerados pelo fim do emprego garantido, do “teto para cada família”, da garantia do trabalho e da justa remuneração apossa-se de amplas massas populares que apostam no discurso de ódio e na busca de uma segurança imaginária que existiria num passado utópico sem imigrantes, sem regulações, sem obrigações e regras sanitárias, trabalhistas ou ecológicas. Assim, tudo que até há pouco tempo emergia como avanços civilizatórios passam a ser anatematizados, alvos de uma novilíngua – uma gramática apostrofada, dita aos berros, baseada na linguagem fascista histórica – que mistura mentiras, preconceitos, lugares comuns e um poderoso ódio contra tudo que possa ser racional, científico ou intelectual, potencializando um homem comum até então menorizado nos sistemas capitalistas vigentes[17]. De forma acelerado depois de 2008, mais uma vez, “…tudo que é sólido desmancha no ar!”
O ressentimento de amplas camadas médias da população vê nas políticas de igualdade social e racial, na ascensão da mulher emancipada, ou nos direitos adquiridos pelas minorias, as causas de seu próprio empobrecimento e perda de posição social. Seus temas sagrados são profanados e suas certezas abaladas. O ressentimento obtuso frente à realidade constitui-se na base de uma percepção simplória do mundo, servindo de base para a expressão do ódio.
Podemos, assim, identificar duas grandes vagas, ou “ondas”, fascistas: a “primeira vaga”, entre o final da Primeira Guerra Mundial, em 1919, até a derrota militar das potências do Eixo Berlim-Roma-Tóquio em 1945; uma “segunda vaga”, a partir de 1991, ou seja, do fim da Guerra Fria, até os nossos dias, como pontos de algidez em 2008 e 2016, e capaz de levar ao poder as novas lideranças (neo)fascistas como Bolsonaro, Trump, Bukele, Milei e os aprendizes ora em campanha – como José Maria Kast, no Chile; Maria Corina Machado, na Venezuela; Santiago Abascal, do “Vox”, na Espanha; Alice Weidel, da “Alternativa para a Alemanha” ou André Ventura, do “Chega!” em Portugal, entre outros.
Evidentemente o fascismo dos anos de 1930, a primeira vaga, dito “fascismo histórico”, e o fascismo do Tempo Presente, a “segunda vaga”, dita “neofascismo” ou, talvez de melhor sentido, como a “Ressurgência Fascista”, não são cópias um do outro, nem mesmo são homogêneos ou diretamente recriações[18]. Da mesma forma que o liberalismo dos anos de 1870 a 1914, não é o mesmo (neo)liberalismo dos nossos dias e como o socialismo democrático e popular dos nossos dias não é uma cópia do “socialismo realmente existente” entre 1917 a 1991 na antiga URSS. Por vezes, a Ressurgência Fascista nos nossos dias repete, desavergonhadamente, os motivos, uniformes, saudações e bandeiras dos anos de 1930, como é o caso de organizações como a “Aryan Nation”, os “Proud Boys” ou o Pegidas. A retomada de símbolos e bandeiras “históricas” do nacional-socialismo e sua recepção por alas do Partido Republicano nos Estados Unidos ou o chamado “Batalhão de Assalto Azov” – parte oficial da Guarda Nacional ucraniana – ou, ainda, o partido “Svoboda” na Ucrânia caracterizam tais organizações como “historicistas”, ou seja, copiam abertamente os símbolos, bandeiras e uniformes nazistas além de cultuarem figuras históricas do nazismo, como Stepan Bandera. Outras organizações, e mesmo governos, defendem e colocam em prática politicas claramente fascistas – como limpeza étnica, construção de campos de concentração, assassinatos de opositores, defesa da “pureza” de determinada etnia e irracionalismo – como o próprio Governo Trump, o Governo Netanyahu, o Governo Melloni, o Governo Milei, o Governo Bolsonaro (esse último flertando diretamente com slogans, estética, formas de organização nazistas) sem, contudo, ressignificar ou apropriar-se das fórmulas historicistas dos fascismos, mantendo-se sob o escudo de regimes “ultraliberais”. A própria imprensa mundial se nega, na maioria das vezes, a aceitar a existência, de fato, da ressurgência fascista aos nossos dias, nomeando de forma apaziguadora tais regimes como “Extrema-Direita”, “Populistas de Direita”, “Ultranacionalistas”, entre outras denominações, visando evitar a designação “fascista”.
Assim, a “segunda vaga” fascista, a chamada “Ressurgência Fascista”, pode, ou não, apresentar características “historicistas” com a reapropriação de símbolos, bandeiras ou frases feitas ou, de outra forma, apresentar uma face moderna, de bom tom, como nos casos de Trump, Melloni, Milei ou Bezalel Smotrich ou Itamar bem-Gvir, em Israel, inclusive acusando seus críticos de antissemitismo. No entanto, a ideologia excludente e racista, as práticas de segregação e limpeza étnica, internação em campos de concentração e morte em massa – por exemplo, das populações de cor dos Estados Unidos nas mãos das polícias locais ou palestinos pelo Tsahal ou através da construção de campos de concentração para imigrantes ditos “ilegais” em meio a pântanos e animais selvagens nos Estados Unidos são práticas, verdadeiramente, fascistas.
Por vezes os fascismos avaliam que a total dissolução do Estado Liberal e do Estado de Bem-Estar Social é por demais custosa e pode avultar os riscos de uma maior oposição. Assim, optam pela fascistização setorial, segmentada, do Estado e, ainda, da Sociedade Civil[19]. Um fascismo molecular, então, se apropria das polícias, da clínica, da escola e até mesmo das Igrejas como trincheiras de onde dirigem uma verdadeira guerra aberta, de nítido conteúdo de classe, contra trabalhadores, camponeses e intelectuais, visando ao mesmo tempo a manutenção da “casca vazia” do Estado Liberal, com a implantação brutal de práticas de repressão e regulação fascistas[20]. Para se assegurar dos seus objetivos a ressurgência fascista busca reforçar e potencializar as inseguranças e misérias da repressão sexual, buscando na família imaginária, de tipo patriarcal e heteronormativa – ao lado de “Deus” e da noção retórica de “pátria” – um suposto indiscutível contra a emancipação das mulheres, os direitos de minoria e, principalmente, infringindo os direitos de crianças e adolescentes através da extrema mercantilização da pornografia[21]. A repressão e o terror sexuais – com o assédio, agressões e assassinatos de mulheres, crianças e adolescentes – caminham lado a lado no processo de fascistização.
A Ressurgência fascista nos nosso tempo, não só se apresenta com diferenciações entre fascismos “historicistas” e fascismos “modernistas” – como havia diferenças entre os fascismos históricos na Itália, Alemanha, Portugal e Espanha nos anos de 1930 – há, ainda, graus diferenciados de aprofundamento do processo de fascistização. Em alguns países a fascistização se apodera da linguagem pública, transformada em novilíngua, de partidos políticos – como parcelas dos Republicanos, nos Estados Unidos, e o Partido Liberal, no Brasil – e, em seguida, dos aparelhos diretamente ligados à repressão política e social, como os Militares no Brasil, em Israel, na Argentina, as policias e a Guarda Nacional nos Estados Unidos. Assim, embora possamos, hoje, identificar uma “Internacional Fascista”, como em 1940 foi criado entre Berlim, Roma e Tóquio um “eixo” fascista – com a adesão de outros países, como Hungria e Romênia -, o movimento fascista internacional hoje é desigual e mantém relações intensas e estreitas entre si, se retroalimentando e apoiando-se mutuamente, através das elites locais, claramente violadoras do princípio de soberania nacional e popular em nome da hegemonia mundial crescente do fascismo.
De qualquer forma, malgrado as diferenças entre as duas “vagas” históricas dos fascismos, além de diferenças nacionais, podemos reafirmar os fundamentos, ontem e hoje, dos fascismos: militarismo, imperialismo, patriotismo retórico, racismo e exclusão de toda a alteridade étnica, de gênero e de classes sociais, ao lado da rejeição das formas liberais e socialistas de organização do futuro dos homens. Os fascismos negam a possibilidade de construir no futuro um mundo melhor e sua utopia reside num passado nebuloso, imaginário e fantasmagórico da pureza racial e da dominação do mais forte. Hoje, como ontem, o fascismo é o maior risco civilizatório da Humanidade.
[1] Hugh Trevor-Roper (1914-2003) foi um historiador britânico destacado pelo Exército para acompanhar e produzir relatórios sobre a experiência nazista na Alemanha. Ver: Trevor-Roper, H.R. The Last Days of Hitler. Columbia University Libraies, 1947; Renzo de Felice (1929-1996) foi por longo tempo o decano da historiografia sobre fascismo na Itália. Ver: De Felice, Renzo. Mussolini, 4 volumes, 1965–1997 (Turin, Fratelli Fabri Editori, 1965–97).
[2] Poulantzas, Nicos (1936-1979), cientista político e filósofo grego radicado na França, possivelmente vítima da organização terrorista “Operação Gládio”, organizada pela NATO. Ver: Fascisme et Dictadure. Paris, François Maspero, 1971.
[4] Hermann Rauschning é hoje seriamente criticado como tendo falsificado as fontes de seus trabalhos, incluindo as alegadas entrevistas com Adolf Hitler. Ver: The Revolution of Nihilism, Warning to the West, Alliance, 1939.
[6] Arendt, Hannah. Origens do Totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo, Cia. das Letras, (1951), 2012.
[7] Ver Michael Geyer and Sheila Fitzpatrick. Beyond Totalitarianism: Stalinism and Nazism Compared. Cambridge, University Press, 1979. As teses sobre a redução conceitual fascismo+stalisnismo foram defendidas por notáveis historiadores conservadores como François Furet, na França, e Ernest Nolte, na Alemanha, merecendo uma vasta crítica por parte dos especialistas em nazismo Ian Kershaw e o especialista em stalinismo Moshe Levy, que caracterizaram a Teoria do Totalitarismo como “cold war concepts”, sem comprovação factual e de amplo uso político. Ver: Kershaw, Ian e Levi, Moshe. Stalinismo e nazismo. Dittature a confronto, Editori Riuniti Roma, 2002.
[8] Poulantzas, Nicos. La Crise de les Dictadure. Paris, Francois Maspero, 1975.
[9] Teixeira Da Silva, Francisco C. e Schurster, Karl. A República Sitiada: militares e bolsonarismo no Brasil. Recife, Edupe, 2022.
[10] Ver o texto fundamental de Karl Marx sobre o Estado e seu papel perante os grupos sociais – em especial a burguesia, o campesinato e o lumpenproletariat em: O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo, Boitempo, (1852), 2012.
[11] Eco, Umberto. O Fascismo Eterno. São Paulo, Record, 2018.
[12] Teixeira Da Silva, Francisco C. e Schurster, Karl. Passageiros da Tempestade. Fascistas e Negacionistas no Tempo Presente. Recife, Edupe, 2023.
[14] Koonz, Claudia. The Nazi Conscience. Harvard, University Press, 2003.
[15] Jean Renaud Gabriel Camus, nascido em 1946, membro de inúmeras organizações supremacistas brancas desenvolve uma intensa propaganda antissemita e islamofóbica, acusando os imigrantes de “colonização muçulmana” da Europa branca. É próximo do movimento alemão Pegidas/Patriotas Europeus Contra a Islamização do Ocidente, e reivindica inúmeros símbolos do nazismo histórico, como a suástica. Foi o autor da tese da “Grande Substituição” como estratégica árabe-muçulmana contra o Ocidente defendendo a expulsão de todos os imigrantes e seus filhos nascidos no Ocidente, o que ele denomina de “remigração”.
[16] Jäckel, Eberhard. Hitler Idéologue. Paris, Calman-Lévy, q1973.
[17] Klemperer, Victor. LTI. A Linguagem do Terceiro Reich. Rio de Janeiro, Contraponto, (2002), 2009.
[18] Teixeira Da Silva, Francisco C. “Os fascismos”. In: Reis Filho, Daniel A. et alii. O Século XX. Rio de Janeiro, Record, 2007.
[19] Guattari, Félix. La Revolution Moléculaire. Fontenay-sur-Bois, Récherches, 1977.
[20] Teixeira Da Silva, Francisco C. “Revoluções Conservadoras, Terror e Fundamentalismos: regressões do indivíduo na Modernidade”. In: Idem. O Século Sombrio. Rio de Janeiro, Elsevier, 2004, pp. 123-190.
[21] Reich, Wilhelm. A Psicologia de Massas do Fascismo. Rio de Janeiro, Martins Fontes, (1933), 2019.
Eu cresci e vivi minha infância e adolescência, como outras milhões de pessoas em todo o mundo, sob o risco do apocalipse atômico. Tinha 11 anos de idade quando minha professora na Escola Estadual Conde de Agrolongo, na traumatizada Penha, Rio de Janeiro, nos falou de Hiroshima, Nagasaki e das explosões nucleares no Atol Bikini. Foi então que vi as primeiras imagens de Hiroshima, do mar de Bikini, e da criação pelo homem de armas capazes de destruir o mundo. Adolescente, o medo do apocalipse nuclear se expressava claramente em filmes “do fim do mundo”, e nas séries japonesas originais de “Godzilla”. O original “Gojira” foi lançado em 1954 pela Produtora Toho, sob a direção de Ishirō Honda e produzido por Tomoyuki Tanaka. Tratava-se claramente de uma advertência, metafórica, sobre os impactos do uso das armas nucleares e seus testes ao ar livre e a consequente contaminação radioativa. Para muitos, o próprio Godzilla representava uma personificação do medo pós-guerra no Japão – o único país alvo de um ataque nuclear.
Inaugurava-se através do filme de Ishiro Honda, o gênero “kaiju” – o cinema de monstros gigantes – com um estilo próprio, miniaturizado, de efeitos especiais ditos “tokusatsu”, que apresentavam cidades sendo destruídas por monstros criados pelos efeitos da radiação.
O Ocidente não ficou atrás: em 1955 o diretor Jack Arnold lançava “Tarântula”, com fantásticos efeitos, em particular as sequências de externas no deserto da Califórnia, denunciando uma ciência sem ética. Em seguida vinha o desconcertante “O Incrível Homem que Encolheu”, também de Arnold, em 1956. Monstros povoavam as telas de cinema em consequência da radiação nuclear decorrente de experimentos humanos – em especial os testes nucleares de superfície, tanto nos atóis do Pacífico como nos desertos do Novo México e no “Nevada Test Site”, onde cerca de 900 bombas atômicas, inclusive a “Bomba H” e a Bomba de Nêutrons vinham sendo “testadas”. Esta última era dita a “bomba capitalista”, posto possuía a capacidade de matar por efeito da radiação, poupando – para quem? – as propriedades privadas. Neste clima surge, em 1957, o filme de Bert I. Gordon denominado “O Começo do Fim”, consolidando um subgênero de ficção científica terror denominado de “bigs bugs”, os insetos gigantes, mutantes criados pelo efeito da radiação, que ameaçam a humanidade. Ou simplesmente por uma morte silenciosa, suja, invisível e inevitável, decorrente de nuvens de radiação que circulariam o planeta. Descobrimos, então, que não era preciso estar próximo do “ponto zero”: os ventos, as chuvas, os rios e os mares seriam envenenados pela radiação durante uma guerra nuclear.
Foi então que assisti, na cinemateca do MAM no Rio de Janeiro, o filme de Alain Resnais, “Hiroshima, Mon amour”, de 1959, um manifesto radical contra a guerra, contra as armas atômicas e a loucura de vivermos sob a “Condição MAD” – a Mútua Destruição Assegurada, através da proliferação atômica. Tratava-se, e ainda é assim, do mais radical manifesto fílmico contra a guerra, contra todas as guerras.
Filmes fundamentais da agenda pacifista nos advertiam, então, que num “lapso momentâneo da razão”, como diria o Pink Floyd no álbum de 1987, poderíamos fazer em 30 minutos que o a Primeira e a Segunda Guerra Mundial juntas não fizeram durante anos seguidos: a completa destruição da Humanidade. Eram tempos de filmes pessimistas, sombrios e carregados de advertências, como “On the Beach” / A Hora Final, de 1959, dirigido por Stanley Kramer; “Fail Safe” /Limite de Segurança, de Sidney Lumet, de 1964; “Seven Days in May” / Sete Dias em Maio, também de 1964, dirigido por John Frankenheimer e, então, o arrasador “Dr. Fantástico” – ou “Dr. Strangelove: ou Como Parei de Preocupar e Aprendi a Amar a Bomba”, ainda em 1964, de Stanley Kubrick. Não era necessário dizer mais, bastava-nos falar “a bomba” para sabermos que havia uma ameaça fatal sobre a Humanidade. Não nos voltávamos para tecnicidades de guerra, se eram mísseis, aviões ou outro meio – o vetor – que nos levaria para o apocalipse. Bastava a menção “a bomba”, e todos sabíamos que seria o fim.
O ano de 1964 tornou o filme de Kubrick – com um genial Peter Sellers – especial. Aproximava-se com a Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962 e a chegada dos “conselheiros” americanos no Vietnã, cada vez mais, a possibilidade da “Terceira Guerra Mundial”. Terceira e última guerra mundial, como advertiam homens como Einstein, Sartre ou Russel. A inconformidade norte-americana com a Revolução Cubana tornara a América Latina, e o Caribe, como hoje, numa ameaça à paz mundial, em especial com a Crise dos Mísseis de 1962, acelerando os golpes militares, ditos “preventivos”, por todo o continente, incluindo o Brasil, arrastando a Argentina e o Chile. A Guerra no Vietnã culminaria, em 1972, com terríveis bombardeios sobre Hanoi e Haiphong, atingindo navios soviéticos e chineses: o mundo prendia a respiração.
A corrida armamentista entre EUA e URSS chegava ao seu paroxismo. O mundo aterrorizado vivia a ameaça da “Segunda Guerra Fria”, impulsionada por Reagan e Thatcher, pela possibilidade real do uso da Bomba de Nêutrons e as novas armas nucleares, ditas táticas, miniaturizadas sob a forma de granadas e obuses nucleares, ao lado dos cálculos insanos do “futurólogo” apocalíptico Fritz Khan sobre quantos americanos morreriam numa guerra nuclear com a então URSS, sugerindo ao complexo industrial-militar que a guerra nuclear não seria o fim e, ao contrário, valeria à pena para destruir o comunismo. Nas ruas, em Berlim, escondíamos o slogan antiguerra: “Besser rot als tot! Ou “Melhor vermelho do que morto!”
Uma última advertência viria com o filme “Day After” / O Dia Seguinte, de 1983, dirigido por Nicholas Myer: o que aconteceria depois da guerra? A total ausência de meios médicos, a fome, o colapso das instituições e, então, o “inverno nuclear”, fenômeno que somando a fuligem, o pó e as cinzas da civilização calcinada criara um halo impenetrável à luz em volta da terra. Como há 66 milhões de anos morreram os dinossauros, a humanidade sucumbiria no frio e na escuridão de um inverno infinito.
Foi neste contexto, como advertência, que em 1947 foi criado o “Relógio do Fim do Mundo” – Doomsday Clock – pela artista paisagista Martyl Langsdorff por iniciativa do Bulletin of the Atomic Scientists, sediado na Universidade de Chicago: marcavam-se os minutos para a meia noite final. Naquele momento faltavam apenas 15 minutos de vida para a Humanidade.
Assisti “Day After” em Berlim, exatamente a cidade, com seu muro, que desencadearia, no filme, a guerra final – a cidade parou, estupefata, para assistir seu próprio fim. Um pouco antes, no Inverno de 1982, todos os berlinenses tinham sido acordados por um tremendo estrondo de aviões ultrapassando a velocidade do som sobre a cidade. Pessoas perambularam em choque nesta madrugada, muitos com roupas de dormir numa temperatura de oito graus abaixo de zero, certos de que a guerra começara. Era, no entanto, apenas uma escaramuça entre as forças aéreas americanas e soviéticas que romperam a velocidade do som sobre a cidade.
No entanto, havia no ar, para além dos aviões, o medo.
Havia resistência, bloqueios e protestos: milhões de pessoas foram para as ruas e pediram o fim das armas atômicas. Rua por rua, bairro por bairro, cidades como Berlim, Paris ou Roma eram declaradas “livres de armas atômicas”. A oposição estendia-se às usinas nucleares que desde a “Síndrome da China” – filme de James Bridge, de 1979, com a “guerreira da nossa geração”, Jane Fonda – sabíamos que não eram seguras. Os acidentes de Three Mile Island, exato em 1979, e depois em Fukushima, em 2011, viriam a confirmar os imensos riscos das usinas nucleares.
Então veio a derrubada do Muro de Berlim, em 1989 e o colapso da União Soviética: terminava a Guerra Fria. Havia uma possibilidade de paz, o que logo foi desmentido pelo surgimento de formas variadas de terrorismo e de empoderamento do Império Americano, como na Guerra do Iraque – dita “Guerra do Golfo” – de 1991. Havia também a possibilidade de terrorismo nuclear: qual a segurança dos arsenais nucleares? O filme de John Woo, de 1996, “A Última Ameaça” – original “Broken Arrow” – viria a apresentar os riscos decorrentes da simples existência dos arsenais nucleares.
Aos poucos, com a esperança de termos superado os medos e as ameaças da Guerra Fria, acreditamos que o apocalipse nuclear havia sido superado. No entanto, não foi assim. Hoje, na Ucrânia, na Rússia, no Estreito de Taiwan, no Oriente Médio e no Caribe a “escalada” da guerra e a possibilidade de “derrapagem nuclear” é imensa, talvez superior a 1962 ou 1972. Basta um erro de algum dos atores nucleares – e agora são muitos mais do que eram em 1962 – para que haja um lapso momentâneo, e final, da razão. Um novo filme, desta feita “A Casa da Dinamite” de Kathryn Bigelow, de 2025, retoma os velhos temas: a paranoia geopolítica, o militarismo, o escasso controle civil sobre o arsenal atômico e os erros de avaliação dos políticos, para atualizar, como thriller de ficção política, a possibilidade real de um apocalipse nuclear. Bigelow, como no conjunto de sua cinematografia, nos adverte sobre os riscos crescentes hoje de uma guerra nuclear generalizada.
Hoje a “Associação de Cientistas Atômicos” atualizou o “Relógio do Fim do Mundo”: faltam apenas 89 segundos para a Meia-Noite!